UM GOLPE DE(DA) MORTE NA CANDIDATURA DILMA E O SORRISO DE MARINA(UMA NOVELA)!



O sorriso de Marina (uma novela)


O Tropicalismo fez uma síntese interessante do Brasil. Havia uma verve poética e informação musical avançadíssimas para a época (na verdade avançadas até hoje), mas também espaço para a apropriação da dramaticidade à antiga, como a interpretação de Caetano Veloso para “Coração Materno”, de Vicente Celestino.
A gravação está presente no álbum-manifesto Tropicália, de 1968. E Caetano e o genial maestro Rogério Duprat, autor do arranjo lancinante, não estão “zuando” ou desligitimando de qualquer maneira o sentimentalismo dessa música absurdamente grandiloquente, inimiga conceitual das bossas novas.
Nas músicais inaugurais da carreira de Gilberto Gil e do movimento, “Procissão”, “Louvação” e “Domingo no Parque”, também estão presentes a religiosidade e a crônica populares. A fase mais aguda da ditadura se aproximava – e mesmo assim não é uma produção ressentida, ranzinza ou “crítica” no sentido pseudomarxista do termo. Na verdade é bastante pop. E bastante inteligente, e bastante inspirado.
Ou seja, o Brasil convergia simultaneamente para seu pior momento (politicamente) e seu melhor momento (criativamente), o que diz algo do caráter paradoxal do país. A Marina Silva que emerge dos funerais de Eduardo Campos, e que foi colega de Gil no ministério de Lula (e depois no PV), não se parece com o compositor. Se parece com uma letra que ele poderia ter escrito.
Franzina, quase morta precocemente, quase freira, tornada sindicalista e ambientalista, sobrinha de um xamã, neta de uma devota e discípula de Chico Mendes, Marina é produto do próprio caldo cultural do Brasil e, particularmente, da região Norte.
Para o cidadão sudestino, a região Norte é em si mesma um mistério. Por preguiça, costuma-se achar que tem muito do nordestino que a colonizou majoritariamente. Mas na verdade é de uma cultura totalmente original, onde a ancestraldade e a contemporaneidade estão juntas, no tempo não-linear dos indígenas. Marina Silva parece-se menos com uma crente urbana do que com um ser da floresta. Conhece um Brasil que o Brasil ainda precisa conhecer.
O que a morte trágica de Eduardo Campos desfechou foi um duro golpe no messianismo de araque do PT. Eu sou daqueles que acham que Lula fez um governo bom e importante (e mesmo “mágico”) – mas que se perdeu em algum momento. Bom o suficiente para ter Marina e Gil em seu ministério. Gil emplacou, Marina não.
Mas Gil corria por fora com as “charmosas” questões culturais, enquanto Marina ficou aprisionada no embate entre a sustentabilidade e o pragmatismo econômico e político. Ganhou a pecha de “chata” e “inábil” por seu principismo – enquanto a chatice e a inabilidade de sua concorrente direta, Dilma, eram cultivadas como qualidades gerenciais.
Acontece que o PT está cobrando caro por seus (ou de Lula) antigos acertos: está cobrando uma aura de sacralidade, infalibilidade e intocabilidade – tudo que ele e o PT já perderam. Não é à toa que ameaçam um chilique quando uma figura egressa das suas fileiras (e egressa antes do Brasil mais profundo) vai ganhando tintas messiânicas mais impressionantes.
Abordei neste texto, Um golpe de (da) morte na candidatura Dilma?, o processo de reposicionamento de Marina no cenário. De lá pra cá, o que aconteceu de novo foi o velório midiático de Eduardo Campos em Recife. É claro que a grande imprensa quer tirar sua casquinha, tanto política quanto sensacionalista. Isso não é novidade.
Mas a enxurrada nas redes de ataques descabidos a Marina tomou uma dimensão constrangedora. Com a ascensão (ops) de marina, o psiquismo petista desceu do pedestal de vez. Nem parece que está no poder, parece uma vizinha do "núcleo pobre" da novela, caricatamente futriqueira e ressentida. Nada como um banho de dramalhão mexicano para botar os personagens no lugar. Com o perdão da caricatura, Marina é a personagem mulher, pobre e nobre. Arquétipos também existem.
Meu amigo Bruno Torturra escreveu no facebook (vou reproduzir uma boa parte do post porque é muito preciso):
“Então quadros e militantes do PT estão a postar fotos da Marina Silva sorrindo e de Lula chorando no enterro de Eduardo Campos... Como se isso provasse que, sei lá, ela está feliz? Ou que é insensível? Na boa. Não é apenas desonestidade. É burrice. Porque além de um festival de tosqueira, é um enorme tiro no pé (...) Se ela coloca tanto medo assim, a ponto de inspirar tanta agressividade durante o funeral de seu companheiro de chapa, vamos lembrar que, antes de ganhar de Dilma, Marina tira Aécio do segundo turno. Certo?
Seria de se esperar, portanto, que tucanos estivessem mais apreensivos. Não é o que sinto, tomando como base, inclusive, a reação de parlamentares petistas que partiram para ataques irracionais a Marina (...) Há muitas críticas duras, contradições legítimas em torno da figura e da candidatura de Marina. E que precisam ser feitas sem medo. Hoje inclusive, por que não? A começar por sua religiosidade e suas posturas morais que tocam a política. Assunto sério.
Mas requentar boatos falsos? Questionar a sinceridade de seu luto? Essa histeria, esse ódio que despolitiza, cria um cenário ainda mais perigoso para o próprio PT após a morte de Campos. Mostra desespero, desrespeito, fraqueza de argumentos. Pega bem mal. E dá lastro ao tipo de polarização política baseada em ódio, não em razão, que se espalha como epidemia. E que se manifesta, principal e cronicamente, no surdo e histérico bordão: ‘a culpa é do PT’”. Bingo. O PT inventa a direita, a direita inventa o PT. É exatamente desse jogo besta que queremos (precisamos) escapar.
É particularmente feio o episódio do uso vil da foto no velório em que Marina sorri. Porque ela está sorrindo para o filho querido de Eduardo, lembrando bons momentos do morto, todos debruçados em cima do caixão. É muito feio distorcer essa cena delicada. Para sorte do bom humor, logo surgiu na rede o termo "fiscal de velório".
Eu brinquei de dizer que, no golpe do destino que levou Eduardo, o “supremo roteirista forçou a mão”. Está claro que o Brasil gosta de enredos grandiloquentes e rocambolescos – e que Marina vai se beneficiar muito, eleitoralmente, dessa comoção.
Numa análise interessante de Josias de Souza, ele descreve a trajetória de Marina rumo à presidência do Brasil como uma sucessão de “repentes”: a ida dos manifestantes para as ruas, a adesão de Marina à chapa de Eduardo quando a mão do PT inviabilizou o registro de seu partido, a Rede, e finalmente a morte de Eduardo.
Mas essas coisas (exceto a morte de Eduardo) não surgem do nada, como um raio em céu azul. Surgem de intuições sociais e políticas, mesmo quando não cabem no figurino das análises mais caretas de conjuntura. Que ninguém negue a Marina o reconhecimento de que estava no lugar certo na hora certa, que rompeu quando tinha que romper, que aderiu quando tinha que aderir, e de que afinal estava de novo no lugar certo na hora certa. Isso não é oportunismo, é coerência interna. Isso é isso. A mudança se faz com o que se tem.
E essa é a magia da política. Acompanhemos a novela da nossa vida: ela é interativa, tem voto nas viradas.

Por Alex Antunes 
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Fonte:https://br.noticias.yahoo.com/blogs/alex-antunes/o-sorriso-marina-uma-novela-160317261.html

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